A cada três minutos, uma pessoa procura uma delegacia do Rio de Janeiro para registrar que caiu em um golpe. De janeiro a setembro de 2025 foram mais de 113 mil registros de estelionato — o maior número da série histórica do estado e um salto de mais de três vezes em relação a 2020, quando foram registrados 36 mil casos. Em locais turísticos como Cabo Frio, os números também assombram: a média é de cerca de 10 golpes por dia.
Os tipos de fraude são muitos — do golpe do advogado ao empréstimo falso, passando por clonagem de cartões e golpes via PIX —, mas um vem dominando as estatísticas e as rodas de conversa: a falsa central bancária. O esquema funciona assim: a vítima recebe mensagens ou ligações aparentemente oficiais, com logotipos, áudios e números que imitam bancos; a conversa cria pânico — “Detectamos uma compra suspeita, foi você?” — e, em seguida, o golpista pede dados, senhas, códigos de cartão ou orienta transferências urgentes por PIX para “contas seguras”. Em minutos, o dinheiro desaparece.
Especialistas em segurança apontam alguns fatores que explicam o crescimento explosivo dos golpes: transformação digital acelerada, uso massivo de redes sociais e aplicativos de mensagem, falta de verificação de identidade por parte de usuários e impunidade. Para o criminoso, o investimento é baixo e o retorno pode ser alto; para a vítima, o prejuízo é imediato — financeiro e emocional.

Além do prejuízo direto, há outro problema grave: a subnotificação e a baixa resolução dos casos. Muitos não registram boletim de ocorrência por vergonha, tristeza ou pela crença de que não haverá resultado. Entre os que formalizam a queixa, poucos têm o crime efetivamente levado a julgamento — e, quando há responsabilização, muitas vezes o autor só é obrigado a devolver o valor, sem sanção penal efetiva.
Como os golpistas operam (e por que caímos)
- Técnica do pânico: mensagens ou chamadas que criam urgência (compra suspeita, bloqueio de conta).
- Imitação visual: uso de logotipos, números falsos e áudio robótico que parecem oficiais.
- Engenharia social: exploram medo e pressa para obter senhas, CPF, códigos de cartão e confirmação de PIX.
- Call centers e “escritórios”: grupos organizados com papéis definidos — quem liga, quem recebe o PIX, quem faz o saque.
- Perfis falsos e redes de apoio: contas falsas em redes sociais e contatos que legitimam a fraude.
O que fazer na hora H — orientação prática
- Desligue e confirme: se receber ligação ou SMS suspeito, desligue e entre em contato com o banco por um canal oficial (telefone do aplicativo, site do banco ou agências físicas).
- Nunca clique em links recebidos por SMS/WhatsApp/e-mail que peçam dados sensíveis.
- Não forneça senhas, códigos ou números do cartão por telefone ou mensagem. Banco nenhum pede isso.
- Congele conta/PIX imediatamente se suspeitar de fraude e registre o bloqueio com o banco.
- Registre boletim de ocorrência (B.O.) — presencialmente ou pela delegacia virtual — e guarde números de protocolo e prints das conversas. Denunciar é essencial para investigação e para ampliar a chance de recuperação do valor.
- Altere senhas e ative 2FA (autenticação em dois fatores) em e-mails e aplicativos bancários.
- Avise familiares, especialmente idosos, que costumam ser os alvos preferenciais.
- Procure o Procon se houve cobrança indevida ou fraude envolvendo empresas.
Onde denunciar
- Faça boletim de ocorrência na delegacia mais próxima ou pela delegacia eletrônica do seu estado.
- Notifique imediatamente o banco e solicite estorno/bloqueio.
- Registre reclamação no Procon municipal ou estadual.
- Preserve provas: prints, registros de chamadas, números e horários.
A conta que não fecha: prevenção e responsabilização
A frequência recorde dos golpes mostra que prevenção individual não basta: é preciso fortalecer a investigação, a cooperação entre instituições financeiras e forças policiais e aperfeiçoar a legislação para punir os grupos organizados por trás dessas fraudes. Enquanto isso não acontece, a atitude mais eficaz continua sendo a cautela do usuário — desligar, confirmar e denunciar.
Quando o medo deixa de ser o gatilho que o golpista usa para nos paralisar, ele perde o poder. Divulgue esta reportagem, avise quem você ama e transforme informação em proteção.

